O regresso da BOY London — ou talvez nunca tenha partido

A BOY London regressou ao panorama da moda mundial, mas será que a marca consegue recuperar a sua relevância nos dias de hoje?

O regresso da BOY London — ou talvez nunca tenha partido


Fundada em 1976 por Stephane Raynor no número 153 da Kings Road, a BOY London fazia parte de um movimento em que a roupa não se resumia apenas à estética, mas servia também para transmitir uma mensagem. Associada a figuras como Sid Vicious, Boy George e Madonna, a marca serviu de símbolo da contracultura britânica. Esse espírito, segundo Can Tran, o atual diretor criativo, é o ponto de partida: reconectar-se com a «essência original» da BOY, que está mais intimamente ligada à provocação cultural em si do que à exploração comercial comum.

O encerramento da sua loja em 1985 marcou o início de um período mais incerto. Desde então, a BOY passou por várias tentativas de renascimento, enquanto a sua imagem continuava a circular independentemente do produto. «Não creio que a BOY tenha desaparecido por completo. Manteve-se viva na cultura, mesmo quando deixou de ter impacto comercial», afirma Can Tras. Mas hoje, o contexto é completamente diferente, não só para a marca britânica, mas para todas aquelas com um pouco de história. O arquivo já não pertence ao passado, mas circula livremente, misturando e renovando constantemente o seu significado nas plataformas digitais. E é aí que a BOY London enfrenta o desafio: como abordar o seu legado? O próprio designer afirma que, na realidade, «trata-se de lhe dar clareza e um ponto de vista firme mais uma vez».

Para Tran, o arquivo não funciona como algo que deve ser preservado intacto: «É uma base sobre a qual construir, não uma gaiola que limita essa construção. O objetivo é preservar o significado do símbolo, não apenas reproduzir a sua aparência.» Isto implica trabalhar a partir da atitude — a provocação, a tensão — em vez de partir da forma exata em que se manifestavam no passado.

A águia tem sido o símbolo que define a identidade da BOY London há décadas, tanto pela sua facilidade de reconhecimento como pela controvérsia em torno da sua estética. A sua ausência nesta nova fase aponta para uma possível reconfiguração da linguagem visual da BOY London America, em consonância com aquele equilíbrio constante entre reconhecimento e reinvenção de que fala Can Tran.

Essa mesma lógica estende-se ao design. Há uma atualização dos materiais — novas construções, tecidos de melhor qualidade — e uma abordagem mais contemporânea que procura traduzir essa linguagem histórica para um contexto atual, sem recorrer diretamente aos seus códigos mais óbvios. Vimos isto claramente há um mês na apresentação da Guillotine, sob o nome Boy London America. A coleção FW26 foi apresentada na Igreja Luterana Alemã de St. Paul, em Nova Iorque. Um cenário repleto de simbolismo para uma coleção que se afasta da imagem mais imediata da marca.

A origem do conceito, explica ele, deriva de um momento específico — o Dia dos Reis — e gira em torno de uma ideia de ruptura. O título Guillotine reforça esta interpretação: um gesto que sugere um corte, uma transição e uma possível reinterpretação do próprio legado da marca.

Longe dos logótipos dominantes ou do streetwear mais reconhecível, a coleção apresenta estruturas, fechos, arneses, couro e referências que combinam elementos de arquivo com uma estética quase medieval. Tran define esta abordagem como uma forma de inspirar-se no passado sem ficar preso a ele: «Gosto de pensar que estamos a honrar o espírito original da marca, focando-nos nas ideias e no legado punk que, de certa forma, se perderam pelo caminho. A rebelião e a liberdade de expressão são tão importantes agora como em qualquer outro momento da nossa história, por isso deixamo-nos guiar por elas enquanto moldamos o que está para vir.»

Historicamente, a BOY London tem navegado por cenários muito específicos — do punk londrino à cultura de discotecas, da fotografia às imagens pop — funcionando mais como um código partilhado do que como uma simples marca. Nesta nova fase, essa ligação não é abordada como uma estratégia, mas como algo que deve emergir organicamente. A intenção, segundo Tran, é trabalhar com criativos que estejam verdadeiramente a construir cultura, e não simplesmente a ampliar uma audiência.

A partir daí, o conceito de comunidade também muda. Precisamos de fomentar o envolvimento e as ligações genuínas dentro de um ecossistema onde as marcas funcionam cada vez mais como plataformas culturais. Na verdade, era exatamente isso que eram na década de 1980. É por isso que hoje a marca ocupa um meio-termo — entre o legado e a independência — a partir do qual procura redefinir o seu lugar no presente. A questão agora é se a BOY London será compreendida no contexto atual com a mesma clareza — e ressonância

Sigue toda la información de HIGHXTAR desde Facebook, Twitter o Instagram

© 2026 HIGHXTAR. Todos los derechos reservados.