O vídeo dura pouco mais de um minuto, mas explica muito bem como funciona a cultura pop hoje em dia. Esta semana, Nicki Minaj reapareceu em Washington ao lado de Donald Trump para reafirmar publicamente o seu apoio a ele durante um evento oficial do governo. A rapper descreveu-se como «provavelmente a fã número um do presidente», garantiu que as críticas não a afetam de forma alguma, dizendo que «campanhas difamatórias não vão funcionar», e concluiu com «Deus o protege». Trump, atrás dela, sorriu como se o roteiro já estivesse escrito.
Em poucas horas, o vídeo tornou-se manchete, meme no Instagram, duetos irónicos no TikTok, vídeos de reação no YouTube e debates expressos no X que duraram exatamente o tempo necessário para atualizar uma página. Tudo isso acontecia enquanto uma nova onda de violência ligada às políticas de imigração, batidas da ICE e alegações de brutalidade policial continuava a dominar a conversa pública. Esse contraste não diminuiu a viralidade; pelo contrário, acelerou-a. A literalidade do discurso, num sistema acostumado à ironia, revelou-se particularmente inflamável.
Não houve boicote, retirada de músicas ou silêncio constrangedor por parte da indústria. O sistema fez o que faz de melhor: absorveu o impacto e transformou-o em conteúdo. O escândalo tornou-se formato, a indignação transformou-se em humor e o cancelamento mais uma vez mostrou a sua verdadeira função em 2026: não atua como punição, mas como filtro. Não elimina figuras, redistribui audiências, muda o debate e confirma que falar de «banir» hoje implica continuar a acreditar numa moralidade cultural partilhada que simplesmente já não organiza a cultura pop contemporânea.
De «o que ela está a fazer?» para «ah, tudo bem»
Durante muito tempo, Nicki Minaj foi vista como uma figura contraditória dentro da corrente progressista: desconfortável, imprevisível, mas ainda assim integrável. Depois de repetir e reforçar o seu apoio a Trump, essa interpretação mudou. Não é mais contradição. É alinhamento. E é aí que a comoção se torna narrativa.
Migrante, mulher negra, ícone global para públicos diretamente afetados pelas políticas que agora defende, Nicki cria uma dissonância que é interpretada não como provocação artística, mas como uma falha no roteiro. Além disso, Nicki não brinca com ambiguidades. Ela não fala sobre «liberdade de pensamento» ou «debate aberto». Ela fala sobre Deus, mérito individual e gratidão pessoal.
Memes, reações e debates
Como costuma acontecer, a internet encontrou a linguagem certa primeiro. Memes começaram a circular, reutilizando o velho código de «se estiver a ser raptado, pisque três vezes» aplicado a Nicki Minaj. Não como uma acusação literal, mas como uma forma coletiva de dizer: isto não se encaixa.
A isso se somaram vídeos de reação com caras feias e silêncios constrangedores, tópicos explicativos tentando conciliar biografia e discurso, debates expressos sobre se arte e política podem ser separadas (novamente) e, para completar, uma petição que circulou meses atrás em plataformas como Change.org pedindo sua deportação dos Estados Unidos por seu apoio a Trump.
O humor funciona aqui como um mecanismo cultural de tradução. Quando o discurso político já não se encaixa nas estruturas narrativas existentes, a internet responde com ironia.
A cultura pop na sua fase pós-moral
A questão final já não é se Nicki Minaj deve ser cancelada, mas por que continuamos a esperar que a cultura pop funcione como um juiz moral. Num ecossistema dominado pelo streaming, pela hiper-segmentação e por públicos ideologicamente coerentes, o escândalo raramente destrói valor: ele redistribui-o, reorganizando os públicos e mudando o centro das atenções.
Hoje, dois modelos coexistem sem se cancelarem mutuamente. Por um lado, artistas como Bruce Springsteen continuam a incorporar a figura clássica do músico como consciência ética. Por outro, há aqueles que entendem que o conflito não é mais resolvido pela busca do consenso, mas pela gestão da polarização como forma de presença constante na mídia. Não é uma batalha entre o certo e o errado, mas um sinal claro de que, nesta era, o impacto da mídia importa mais do que o julgamento público.
Estas são as dicas para dormir melhor que encontramos no TikTok e que realmente vale a pena ouvir.
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