Zara no palco mais caro do mundo
A surpresa veio quando o artista apareceu vestido com roupa da Zara. Um look total em tons creme, estilizado pelos seus colaboradores habituais Storm Pablo e Marvin Douglas Linares, composto por um casaco acolchoado — quase de linebacker — com o número 64 bordado (o ano de nascimento da sua mãe, Lysaurie Ocasio), camisa com gravata, calças chino e ténis da sua colaboração inédita com a adidas. Vestir Zara no palco mais caro do mundo pode ser interpretado como uma legitimação do popular frente ao fetichismo do luxo. Mas também como o que é: uma escolha confortável.
Essa mesma lógica de impacto estendeu-se ao calçado. A estrela porto-riquenha levou para o palco do intervalo os BadBo 1.0 «Resilience», ainda não lançados no mercado, e a sua aparição foi suficiente para provocar um verdadeiro efeito dominó na internet. De acordo com dados dos especialistas em calçado da JD Sports, as pesquisas globais no Google por «adidas BadBo 1.0» aumentaram 496 % após a sua atuação e a conferência de imprensa antes do jogo, o que reforça o enorme impacto do artista nas tendências da moda a nível internacional.
A mensagem e o seu paradoxo
Não se pode esquecer que o Super Bowl é um dos maiores espaços publicitários do planeta e que nenhuma marca aparece por acaso. O facto de Bad Bunny ter escolhido uma marca massiva, acessível e de origem hispânica reforça o seu discurso de pertença cultural: cantar em espanhol, vestir uma marca espanhola, falar diretamente para um público latino que ultrapassa os 65 milhões de pessoas só nos Estados Unidos. Mas essa mesma escolha suaviza o potencial disruptivo do gesto. Em comparação com as suas recentes aparições com Schiaparelli, Jacquemus ou Maison Margiela — onde desafiou frontalmente os códigos de género e luxo —, a Zara encaixa perfeitamente no sistema.
O estilo não renunciava totalmente ao luxo. No pulso, Bad Bunny usava um Royal Oak da Audemars Piguet em ouro amarelo de 18 quilates com mostrador em malaquita. A fórmula clássica das celebridades atuais: parecer acessível sem renunciar ao status.
Um dos momentos mais comentados do espetáculo foi a aparição de Lady Gaga, vestida de azul celeste com um design da Luar, a marca dirigida pelo designer dominicano-americano Raul López. No peito, um hibisco vermelho, a flor nacional de Porto Rico. A cenografia, que misturava referências às ruas de Porto Rico e Nova Iorque, reforçava essa ideia de diáspora partilhada.
Da camisola ao galã clássico
À medida que a apresentação avançava, Bad Bunny trocou a camisola por um casaco branco de smoking com botões duplos e calças largas. O branco — uma das suas cores favoritas — conecta esse look a momentos importantes da sua carreira, como as suas aparições no Met Gala com designs de Jacquemus ou Maison Margiela, onde explorou silhuetas tradicionalmente associadas ao feminino. Aqui, no entanto, o branco serviu para encerrar a narrativa com uma imagem polida.
Vestir-se em tempos de tensão
O guarda-roupa de Bad Bunny no Super Bowl não pode ser entendido à margem do clima político que o rodeia. Dias antes, a sua aparição no Grammy com um fato Schiaparelli gerou rumores sobre um suposto colete à prova de balas, alimentados pela polarização e pelas críticas públicas do então presidente Donald Trump à sua escolha como protagonista do espetáculo do intervalo. O rumor era falso.
Esse contexto explica uma contradição central de sua figura pública. Bad Bunny construiu sua identidade a partir do risco estético, mas sua entrada definitiva no centro do sistema cultural exige agora uma gestão mais contida do gesto.
Vestir-se com roupas da Zara pode ser interpretado como um apelo ao coletivo e ao reconhecível, mas também como uma forma de evitar atritos no palco mais caro do mundo. A questão que o seu look deixa em aberto não é se foi coerente, mas se, num contexto de máxima visibilidade, a normalidade continua a ser um ato político ou se passou a ser a opção mais confortável.
Debate racial, cultura e o Super Bowl como espelho do que acontece nos Estados Unidos.
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