Como acontece em todas as temporadas de alta costura, as redes sociais estão novamente repletas de imagens espetaculares: vestidos impossíveis, volumes exagerados e peças concebidas mais para ganhar manchetes do que para serem compreendidas fora das passarelas.
Durante décadas, a alta costura foi a força motriz do sistema da moda. Ela ditava as tendências em silhuetas, técnicas e hierarquias criativas que eram depois transmitidas à moda prêt-à-porter. Hoje, esse modelo desapareceu. A moda já não é organizada de cima para baixo, e o peso económico do setor concentra-se nos acessórios, fragrâncias e linhas industriais. No entanto, a alta costura não desapareceu, mas porquê? Qual é o seu verdadeiro propósito hoje em dia? Por que razão apenas algumas casas são capazes de a produzir? E até que ponto a extravagância é uma condição essencial para a sua existência?
1. Símbolo de poder cultural e legitimidade
Participar em desfiles de alta costura coloca uma marca numa hierarquia muito específica dentro do setor do luxo. Não é apenas uma questão de estética, mas também de estrutura. O termo «alta costura» é regulamentado e protegido: implica ateliês em Paris, equipas de artesãos especializados, coleções personalizadas apresentadas duas vezes por ano e uma relação direta com os clientes reais. Não é um rótulo que possa ser adotado livremente.
É por isso que a alta costura funciona hoje como um símbolo de autoridade cultural. Num mercado saturado de produtos, colaborações e ruído visual, a costura introduz algo cada vez mais escasso: tempo, trabalho manual e uma exclusividade que não é apenas narrativa, mas também material.
Essa legitimidade não se traduz diretamente em vendas, mas sim em valor percebido. A alta costura justifica os preços, consolida o mito da maison e alimenta uma imagem de luxo extremo que se projeta para o resto do negócio.
2. Investimento simbólico
Hoje em dia, a alta costura não existe como motor comercial. O número de clientes é pequeno, extremamente privado e, em termos comerciais, marginal em comparação com o resto do ecossistema do luxo. O seu verdadeiro valor reside noutro lugar: a alta costura funciona como um investimento simbólico.
É o espaço onde uma casa de moda pode trabalhar sem a pressão imediata do mercado, experimentando técnicas extremas, materiais impossíveis ou narrativas conceptuais que não teriam lugar numa coleção concebida para produção em massa. O que acontece na alta costura raramente é replicado tal como está, mas filtra ideias, códigos e atitudes que são depois traduzidos — de uma forma mais digerível — para o resto das linhas, embora nem sempre funcione assim.
Mais do que uma coleção, a alta costura é um laboratório criativo e, acima de tudo, uma ferramenta de posicionamento.
3. Gerador de ícones visuais e imagens de arquivo
No mundo atual, a alta costura é consumida tanto — se não mais — fora das passarelas quanto nelas. Ela está presente em editoriais, tapetes vermelhos, museus e redes sociais. Sua função é gerar ícones visuais, peças que não precisam ser compradas para serem influentes.
Isso leva-nos a uma das grandes questões da atualidade: a alta costura precisa ser extravagante? A resposta é não, mas a espetacularidade tornou-se uma estratégia comum porque funciona como uma linguagem imediata num contexto dominado pela imagem. Não é uma obrigação criativa, mas uma decisão comunicativa.
A extravagância não define a alta costura; o que a define é o nível de execução, o artesanato e a capacidade de condensar um discurso criativo sem compromissos comerciais.
4. Por que nem todas as casas de moda apresentam coleções de alta costura?
Porque nem todas precisam disso, nem podem — ou querem — sustentá-lo. A alta costura requer uma infraestrutura cara e consistência histórica que nem todas as marcas possuem. Entrar nesse calendário sem o DNA para sustentá-lo pode ser percebido como um gesto vazio.
Além disso, hoje existem outras maneiras de construir relevância e notoriedade. Algumas casas geram desejo através do seu conceito, estratégia cultural, comunidade digital ou produto industrial de alta qualidade. O seu luxo não vem necessariamente do artesanato extremo, mas sim da ideia, da imagem ou da capacidade de ler o presente.
A alta costura é apenas uma das maneiras possíveis de alcançar autoridade, não a única.
5. O clímax da história
No sistema contemporâneo, a alta costura já não ocupa o centro das atenções, mas continua no topo. Não define as tendências de consumo nem o ritmo do mercado, mas estabelece hierarquias simbólicas. É o lugar onde a moda deixa de competir para vender e começa a competir para significar algo.
Compreender a alta costura hoje em dia não significa perguntar quem tem condições financeiras para comprá-la, mas sim quem precisa — e quem não precisa — sustentar essa narrativa. Porque, mais do que uma categoria de produtos, a alta costura é uma declaração de poder dentro do luxo contemporâneo.
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